
Vestir-se para se sentir: Como a roupa mexe (muito) com a autoestima das mulheres
Em 2024, 1 em cada 3 meninas e jovens mulheres no Reino Unido disse “não ter confiança” na própria aparência; esse índice cresce com a idade. No Brasil, análise nacional com adolescentes (dados PeNSE 2019) estimou 30,2% de insatisfação com a imagem corporal, mais alta entre meninas. Ambos os achados associam pressão estética e bem-estar psicológico, inclusive online.
O que a ciência já sabe
Quando a roupa altera a mente: Experimentos clássicos mostram que vestir peças associadas a certos significados (como um jaleco) muda a atenção e o desempenho em tarefas cognitivas. O efeito depende tanto do significado simbólico quanto do ato de vestir.
Pensar mais alto de salto? O papel do formal. Estudos em psicologia social indicam que roupas formais podem elevar o pensamento abstrato e a sensação de poder — efeitos que interagem com contexto e preferência pessoal.
Vestir para apreciar o corpo (e não para escondê-lo). Pesquisa de 2024 com mulheres adultas mostrou que um curso sobre sociologia/psicologia do vestir aumentou a “apreciação corporal” e estimulou funções do vestuário ligadas a identidade e segurança, em vez de camuflagem.
Psicologia, corpo e guarda-roupa: o que dizem os especialistas
A psicóloga Carolyn Mair, PhD (autora de The Psychology of Fashion) defende que roupas participam da identidade e afetam humor, autoconfiança e pertencimento — razão pela qual decisões de design e comunicação têm impacto psicológico real.
Na clínica e na pesquisa de imagem corporal, a recomendação converge: mudar o foco do “esconder” para o “expressar” — usar o vestir como ferramenta de autocuidado e autoria (e não como correção permanente). O estudo de 2024 citado acima corrobora: ampliar funções do vestir (conforto, individualidade, segurança) eleva a apreciação do corpo.
Ao mesmo tempo, evidências apontam que certos ambientes de consumo (ex.: varejo de activewear) e padronizações visuais estreitas derrubam o bem-estar de parte das mulheres, sobretudo as de corpos fora do “padrão” — o que inclui barreiras à prática de exercícios quando a roupa não veste bem.
Por que isso mexe na autoestima?
Significado + sensação: o que uma peça “representa” (para você e para o mundo) interage com sensações físicas (caimento, toque, mobilidade). Quando ambos favorecem autenticidade e conforto, há ganhos em autoconfiança e humor.
Espelho social: padrões estreitos e imagens editadas intensificam comparação e auto-objetificação, corroendo a confiança — especialmente na adolescência.
Agência: vestir com intenção (identidade, função, contexto) e acesso a modelagens inclusivas amplia o senso de controle, variável ligada a melhor autoestima.
Caminhos práticos (e possíveis)
Nomeie a função da roupa hoje: expressar? proteger? facilitar? Escolha peças que sirvam ao objetivo do dia (e ao seu corpo), não a um ideal externo.
Critique a vitrine: reduza contato com feeds que detonam seu humor/autoimagem; privilegie perfis e marcas com diversidade real. A ciência mostra efeito positivo quase imediato.
Conforto é critério de saúde: ajuste, tecido e mobilidade importam. Se a roupa limita sua vida (ex.: evita se exercitar), o problema é a peça — não o seu corpo.
Conclusão — vestir é cuidar da mente
Roupa nenhuma “resolve” autoestima sozinha. Mas há sólido corpo de evidências de que o vestir pode apoiar bem-estar emocional quando alinhado a identidade, conforto e propósito, e quando o ecossistema (mídia, varejo, escola) reduz pressões e amplia representações. Do laboratório à sala de aula, a direção é clara: menos camuflagem, mais autoria.
Em tempos de filtros e padronizações, escolher — e exigir — roupas que nos deixem ser pode ser um ato de saúde.